Comitês em Ação

Museus e memórias - algumas reflexões

Antrópologa analisa relação entre museus e memórias no processo de reparação histórica

Cais do Valongo, porto de chegada de centenas de milhares de africanos escravizados

Por Flávia Carolina da Costa*

Nos últimos meses, acompanhamos as notícias de que, muito em breve, o prédio que abriga a Ação da Cidadania receberá também o Museu da Escravidão. A discussão em torno do nome “Museu da Escravidão” gerou debates calorosos por parte de pensadores, pesquisadores, ativistas e do público em geral. Oscilando entre argumentações favoráveis e contrárias ao uso do termo “escravidão”, as discussões logo deram mostra da pouca unanimidade sobre o assunto.

Menos do que as querelas envolvidas na nomenclatura do espaço, o que deveria nos instigar neste momento é o fato de não sabermos exatamente qual o objetivo específico do assim definido Museu da Escravidão. É claro que, a princípio, a ideia trazida no nome nos remeteria ao fenômeno da escravidão de um modo geral, como aquilo que, sem eufemismos, moldou a cultura brasileira em muitos aspectos, desde o sistema servil, dilacerante e violador, pressuposto no ato de se escravizar seres humanos, até o contato com uma cultura diversa da indígena preexistente em todo nosso território e da portuguesa trazida pelos nossos colonizadores. E, neste sentido, é claro também que a região portuária do Rio de Janeiro, tendo em vista todas as descobertas trazidas à tona com as obras de reestruturação urbana realizadas pelo Projeto Porto Maravilha, é o espaço ideal para promover esta reflexão.

Seria, então, de se imaginar que o objetivo do Museu da Escravidão estaria vinculado à exposição dos artefatos arqueológicos encontrados durante as escavações que aconteceram entre os anos de 2011 e 2012, uma vez que tal exposição foi proposta largamente defendida e noticiada pela Prefeitura da cidade desde as descobertas. Todavia, em novembro de 2016, a Sala de Imprensa do Ministério Público Federal no Rio de Janeiro noticiou que o próprio MPF e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) teriam assinado um Termo de Ajustamento de Conduta visando garantir a guarda definitiva e a gestão dos achados arqueológicos, bem como a criação de um Laboratório Aberto de Arqueologia Urbana do Estado do Rio de Janeiro, que deverá funcionar em um dos galpões da antiga Estação Marítima da Gamboa, localizada entre o Morro da Providência e a Cidade do Samba, onde atualmente já se encontram devidamente acondicionadas 1,5 milhão de peças limpas e catalogadas. No mesmo Laboratório também devem ser construídos uma área para exposição, um laboratório de pesquisas arqueológicas, salas para pesquisadores e um auditório.

Ficando os artefatos arqueológicos restritos ao futuro Laboratório Aberto de Arqueologia Urbana, voltamos novamente à dúvida sobre o que irá compor o Museu da Escravidão. Não se trata de desconsiderar a importância da criação do museu para a região portuária, para a cidade do Rio e para o Brasil, mas sim de se refletir quais tipos de exposições, memórias e histórias pretende-se construir neste momento, naquele espaço. Não podemos nos esquecer que a mesma região já abriga separadamente espaços e monumentos voltados à memória da herança africana, assim como abriga um Circuito Histórico criado exclusivamente para conectar tais espaços em torno de uma rota de visitação turística que, desde o fim das Olimpíadas, tem sido pouco freqüentada pelos visitantes da cidade, quase sempre capturados primeiro pelas atrações da Praça Mauá.

Se por um lado a criação de um Museu da Escravidão lança luz sobre a necessidade de refletirmos sobre um momento de nossa história cujos efeitos ainda hoje se perpetuam em nossas formas de organização urbanas e sociais, por outro, para se reparar os efeitos da escravidão não basta que criemos museus, espaços, monumentos e rotas turísticas sobre o assunto. É preciso que se desenvolva uma educação realmente voltada à compreensão desses espaços, monumentos e fatos históricos de modo que nossa memória social promova mecanismos de justiça simbólica e social, ao mesmo tempo em que passe a entender e a aceitar a diferença cultural como um componente da nação.

Além disso, é preciso considerar que a criação de museus e monumentos históricos oficializa uma memória da cidade e tal memória não pode ser insensível com as compreensões feitas pelos cidadãos habitantes dos espaços onde tais museus e monumentos venham a ser erguidos. A região portuária do Rio de Janeiro congrega diversos grupos de moradores e movimentos de pertencimento anteriores à chegada da Parceria Público-Privada de reforma urbana e é preciso que tais vozes sejam ouvidas e consideradas no processo de criação de qualquer aparelho que se destine a oficializar uma memória da região e da cidade. Assim, articular historicamente o passado e o presente não é apenas conhecê-lo como de fato foi, é também um minucioso trabalho de equilíbrio entra as narrativas de quem já viveu com as de quem viverá.

Flávia Carolina da Costa é doutora em antropologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e pesquisa a região portuária do Rio.

Notícia publicada em 08.02.2017