Comitês em Ação

Violência e resistência encorpadas

Carla Rodrigues, professora da UFRJ, escreve sobre o corpo da mulher como campo de batalha

Carla Rodrigues

O corpo de uma mulher é um campo de batalha, como no belo título da peça de teatro do dramaturgo romeno Matéi Visniec. Sobre esse corpo, violências físicas, sexuais, fatais, jurídicas, médicas, simbólicas, reais, são perpetradas como forma de dominação não apenas do nosso corpo físico, mas da nossa existência no mundo. Existirmos, a que será que se destina, é a pergunta que toda mulher ouve e se faz desde que nasce, marcada pelo fato de não ser homem. Aqui está a primeira e mais cruel de todas as violências, a fabricação, na cultura, da insuficiência do feminino. Esse aspecto da insuficiência pode ser denunciado, por exemplo, no fato de que todo filho ou filha carrega o sobrenome do pai, mas apaga o sobrenome da mãe. Esconde na cultura o que a natureza não pode esconder, o fato de que todo corpo vivente nasce a partir da barriga de uma mulher. Essa força de dar à luz é tão grande que, contra ela, ao longo da história da humanidade, muitas formas de violência se impuseram. Dominar o corpo de uma mulher, eis o propósito das diferentes formas de machismo, dos inúmeros mecanismos patriarcais, capitalistas, estatais e religiosos.

Nesses sistemas e nessa história, é mais vulnerável o corpo da mulher negra, da mulher pobre, da mulher jovem, da mulher idosa, da mulher que vive numa periferia, da mulher operária, da mulher trabalhadora doméstica, da mulher solteira, da mulher casada...tantas são as marcações de vulnerabilidade que podemos concluir que todo corpo marcado pelo elemento feminino é um corpo marcado pela possibilidade de ser violado, é um corpo violável. Essa é ao mesmo tempo o nosso pior destino e a nossa maior força de resistência.

Digo força de resistência porque me parece que ter um corpo violável é um destino cruel que, no entanto, não deve nos fazer de vítimas. Ao contrário, ter um corpo violável quer dizer ter um corpo que desde o início da vida luta para garantir o seu direito de não ser violado. Nesse sentido, um corpo violável é um corpo que só pode existir se for um corpo resistente. Imensas e históricas são as lutas das mulheres, da Europa à África, dos EUA ao Brasil, do Ocidente ao Oriente, para garantir a existência de seus corpos como invioláveis, de suas vidas como vivíveis, para usar aqui uma expressão da filósofa Judith Butler com a qual gostaria de me alinhar.

Ter uma vida vivível depende de ter a garantia da existência de seu próprio corpo, questão que não atravessa o corpo masculino ou que só atravessa o corpo masculino quando este se apresenta marcado por traços do feminino, como acontece nos crimes de homofobia. Ter um corpo em permanente estado de ameaça, seja pelo pai, seja pelo companheiro, seja pela polícia, seja pela lei, seja pela medicina, é viver privada do direito de exercer a sua própria vida em condições mínimas de igualdade com quem vive sem estar sob esse jugo. Inúmeras são as tentativas de punir os autores desses crimes. Há 10 anos, a Lei Maria da Penha tem como objetivo de punir a violência exercida contra a mulher no âmbito doméstico. Há dois anos, o agravante penal do feminicídio quer criminalizar de forma mais intensa companheiros, namorados ou maridos que cometam homicídio contra suas parceiras.

Há pelo menos 20 anos os movimentos feministas lutam pela descriminalização do aborto e por assistência materno-infantil de modo a buscar reduzir a morte de mulheres por interrupção de gravidez realizadas de forma clandestina e insegura e a morte de mulheres no parto e pós-parto. Há pelo menos 20 anos, forças religiosas se opõem a esta luta de modo sistemático a partir de pelo menos um argumento: a vida das crianças que ainda virão a nascer tem mais valor do que a vida da mulheres que as gesta.

É nessa hierarquia de valores que o corpo da mulher tem sido atacado, violado, violentando, manipulado, surrado, abatido, e ao mesmo tempo tem sido o lugar de resistência, o campo de batalha onde nós, mulheres, podemos erguer nossas bandeiras de emancipação, liberdade, insurgência. É na luta pelo direito ao corpo e tudo que isso envolve – prazer, sexo, maternidade, juventude, envelhecimento –, é nessa luta encorpada, incorporada, que cada uma de nós expõe sua máxima fragilidade e sua maior força.

Tem sido assim, por exemplo, desde que um policial canadense disse às mulheres que deixassem de se vestir como vadias para não serem estupradas. A Marcha das Vadias que começou no Canadá em 2011 se espalhou pelo mundo, corpos de mulheres protestando contra a violência policial. Foi assim também, com seus corpos, que as mulheres escravas resistiram, no Brasil dos séculos 18 e 19, a ter filhos que nasceriam de novo escravos. É com o corpo, no corpo, pelo corpo, que a pior violência se manifesta; é com o corpo, no corpo, pelo corpo, que a rebeldia das mulheres denuncia toda violência patriarcal, machista, institucional e estatal contra o nosso direito de – negras, índias, brancas, magras, gordas, jovens, velhas, pobres, ricas – ter uma vida vivível.

Carla Rodrigues é professora Drª de Filosofia da UFRJ. Este artigo foi publicado na edição de janeiro/fevereiro do jornal Cidadania em Ação.

Notícia publicada em 16.03.2017